| Divulgação |
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| Produção local: a verdura servida na merenda é produzida por 160 agricultores da região |
Em 2007, uma avaliação nutricional dos alunos de 11 escolas indígenas de Paragominas, no Pará, mostrou que as crianças das etnias Tembé e Urubu Kaapó apresentavam anemia e verminoses. Na mesma época, o olhar da equipe de nutrição da Secretaria Municipal de Educação observou que, de modo geral, os 30 mil estudantes das 50 escolas do município consumiam poucas hortaliças e verduras - essenciais para o equilíbrio alimentar. De lá pra cá, algumas ações implementadas pela equipe de gestão da merenda escolar de Paragominas conseguiram mudar padrões, como o incentivo à agricultura local e familiar, a educação alimentar nas escolas e a introdução de novos alimentos no cardápio da merenda. Os resultados foram tão positivos que em 2008 o município foi vencedor em duas categorias do 5º Prêmio Gestor Eficiente de Merenda Escolar, promovido pela ONG Ação Fome Zero: o Nacional, pela alimentação das escolas indígenas, e o Regional, pela eficiência nutricional da merenda escolar no município.
O cuidado com a merenda escolar não é novidade na cidade, que há cinco anos está entre os destaques do Prêmio. De acordo com o professor Walmir Nogueira Moraes, coordenador do serviço no município, a merenda é prioridade porque, como a carência na região é muito grande, a alimentação ainda é o chamariz para a educação. "Se a gente não oferece uma boa merenda, os alunos não vêm à escola", explica.
Por boa merenda entenda-se um cardápio variado, seja nas aldeias ou na cidade: caldo de macaxeira com charque, arroz, feijão e carne de sol, arroz colorido com bife à caçarola, macarronada de frango desfiado com creme de leite, sopa de legumes com carne, além de suco de frutas regionais, açaí com tapioca, arroz doce, mel e rapadura entre as sobremesas. "Os indígenas não passam sem a macaxeira com carne de sol ou charque. Para sanar o problema da anemia, reforçamos o feijão e introduzimos a soja, o mel e a rapadura, que foram bem aceitos", conta a nutricionista Galbani Cardoso Carneiro, coordenadora de nutrição da Secretaria Municipal de Educação.
Agricultura familiar
Outro importante foco das atenções da gestão de merenda escolar no município é o incentivo à agricultura local e familiar, que trouxe como consequência a mudança de hábitos alimentares na região por meio da reeducação alimentar. Há três anos, a Secretaria Municipal de Educação passou a comprar hortaliças diretamente dos pequenos produtores da região ao invés de comprar de atravessadores que só encareciam os preços. De acordo com Moraes, o consumo de hortaliças era muito baixo no município e a introdução desses alimentos no cardápio dos estudantes, aliada à educação alimentar e ao incentivo à agricultura local e familiar, fez com que a produção da região crescesse e os preços baixassem, beneficiando a população em geral.
Hoje, toda a verdura servida nos pratos dos estudantes da cidade vem da agricultura local, beneficiando mais de 160 produtores. Para o coordenador da merenda no município, essa iniciativa foi uma ousadia da equipe, pois na época não havia uma legislação que amparasse a compra direta do pequeno produtor, sem licitação, como existe hoje. "Chegamos a ser notificados pela fiscalização da Controladoria Geral da União (CGU), porém a situação foi contornada em função do benefício social trazido pela compra direta de pequenos produtores participantes do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), certificados pela Empresa de Assistência Técnica de Extensão Rural do Estado do Pará (Emater)", explica Moraes. Em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a prefeitura também ofereceu cursos de controle de custos, atendimento ao mercado, produção e venda de hortaliças, entre outros, para esses pequenos agricultores.
De acordo com Galbani, produtores locais de frutas, carnes e laticínios também já oferecem preços mais baixos do que os de produtos comprados em outras regiões e estão vencendo as licitações para fornecimento de merenda escolar. "Sem os altos custos de transporte de mercadorias, temos produtos de maior qualidade a preços melhores e mais empregos na região", conta a nutricionista.
Educação alimentar
Com mais verduras, frutas e legumes nos pratos, era hora de investir também em educação alimentar. O tema entrou na rotina das escolas de Paragominas, da educação infantil ao ensino fundamental, de maneira interdisciplinar. Aparece constantemente nas disciplinas de português, artes, história e geografia, ciências e matemática por meio de jogos, brincadeiras e até no cultivo de hortas escolares, presentes em 15 das 50 escolas da cidade. De acordo com Galbani, o objetivo é incentivar a alimentação saudável e variada e reduzir o desperdício. "A educação alimentar já faz parte da cultura escolar da cidade", diz.
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Geraldo Pedro Sarmento, o Projeto Desperdício Zero, que integra as ações de educação alimentar, foi um sucesso. Durante algumas semanas, as merendeiras pesaram a comida que as crianças deixavam nos pratos e mostraram a elas o resultado. "Os alunos passaram a ter noção de quanta comida ia para o lixo", conta a vice-diretora Triciany Aguiar Coelho.
Com os trabalhos de conscientização sobre a importância da alimentação variada e sobre o próprio desperdício, o problema praticamente desapareceu. Agora, as equipes da Geraldo Pedro Sarmento e de outras quatro escolas do município se preparam para participar do Projeto Educando com a Horta Escolar, promovido pelo Ministério da Educação (MEC), no qual as crianças participam de novas atividades interdisciplinares nas hortas das escolas. No Estado do Pará, além de Paragominas, apenas um outro município aderiu ao projeto.
Para Walmir Nogueira Moraes, o município está preparado para desenvolver essas ações e se propõe também a promover a mudança cultural de toda a comunidade. "O Educando com a Horta Escolar tem a intenção de intervir na cultura alimentar e nutricional dos estudantes e das comunidades do entorno escolar, oferecendo capacitação de professores e material didático para a inserção de mais conteúdos de educação alimentar e nutricional no contexto pedagógico", explica Moraes. Para a secretária de Educação de Paragominas, Mozimeire Pereira, o desafio do projeto é resgatar a consciência nutricional dos alimentos dentro e fora da sala de aula. "Vamos buscar a participação da comunidade e, principalmente, dos pais", afirma. "Eles serão importantes aliados nesta mudança alimentar", prevê.
Serviço
Prêmio Gestor de Merenda Escolar
Em novembro serão divulgados os vencedores da 6ª edição do Prêmio. Desta vez, um total de 1.099 municípios se inscreveram. Em 2008 foram 1.022. Informações no site http://www.premiomerenda.org.br/site/
| Projeto é bancado pelo FNDE |
O projeto é financiado pelo governo federal, por meio de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), com apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Com materiais didáticos especialmente desenvolvidos para a ação, os professores de todas as disciplinas das escolas participantes irão aprender a desenvolver atividades de forma lúdica e criativa com a temática da horta junto aos seus alunos. A primeira fase foi desenvolvida em 17 municípios brasileiros entre 2005 e 2008 e agora foi iniciada uma nova fase com participação de 59 cidades. O material didático e mais informações sobre o projeto podem ser encontrados em: http://www.educandocomahorta.org.br/ |
| Receita da boa merenda |
- Avaliação médica e nutricional periódica dos estudantes. |
| Lei beneficia agricultura familiar |
A lei 11.947, de junho de 2009, determina a utilização de, no mínimo, 30% dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para alimentação escolar na compra de produtos da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando os assentamentos de reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas. A aquisição desses alimentos pode dispensar a realização de licitações, desde que os preços sejam compatíveis com os vigentes no mercado local. A aquisição de gêneros alimentícios será realizada, sempre que possível, no mesmo município das escolas. |