publicidade
Newsletter:
OK
  Buscar:
OK
  Redes:

Boas práticas

Boas práticas

Educação contra o preconceito


Adaptações estruturais e formação para os professores permitiram inclusão de alunos com deficiência na rede regular


Filipe Jahn

Para atender os alunos com deficiência, a rede de Monte Carlos investiu na formação dos professores, no conhecimento sobre as diferentes deficiências e no combate ao preconceito


Formação e infraestrutura, mas também combate ao preconceito de professores, alunos e pais estão na base do programa "Iguais e diferentes: podemos viver juntos". O nome é também o grande lema das ações desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Educação de Montes Claros, em Minas Gerais. Para incluir o aluno com defi­ciência física e mental no ensino regular, a rede instituiu a capacitação dos gestores, por meio de cursos de formação, e realizou uma série de adaptações em sua organização, com a contratação de auxiliares de docência, de intérpretes de Libras e a criação de salas de recursos. Com bons resultados, o programa é finalista do prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) Brasil deste ano, promovido pelo governo federal.

Atualmente as unidades de ensino da rede municipal de Montes Claros atendem 511 crianças com deficiência, que recebem assistência para acompanhar as aulas e desenvolver suas habilidades intelectuais. Para isso, foi necessário montar uma equipe especializada na secretaria, investir em treinamento e capacitações, vencer barreiras do preconceito e criar um ambiente adequado à aprendizagem. Desde o início, porém, o principal foco de atenção foi sobre os responsáveis diretos pelo êxito do programa: os professores. "Se o docente não estivesse preparado, fosse por desconhecimento ou até mesmo por preconceito, sabíamos que não haveria estrutura que pudesse dar conta do recado", explica Ilma Mendes de Almeida, coordenadora da Seção de Educação Inclusiva (SEI) da Secretaria Municipal de Educação.

Preconceito

O programa começou em 2009 e, até então, as crianças com deficiência, em sua maioria, eram atendidas na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Mas o primeiro passo começou no ano anterior, quando a Secretaria fez uma série de pesquisas sobre o tema com o objetivo de levantar quais seriam as principais necessidades dos gestores e pedagogos que trabalhavam nas escolas.

A partir daí, a SEI organizou palestras e seminários abordando temas como autoestima, liderança e participação da família. Ilma lembra que o objetivo foi sensibilizar os educadores para a convivência entre crianças com e sem deficiências.

A professora do Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Mundo da Criança, Ruth Ribeiro Marques, conta que houve polêmica entre os colegas no início do programa: uma parcela dos docentes não foi receptiva à mudança, pois acreditava que teriam uma dificuldade muito maior para dar as aulas. "Só que com os cursos e a própria prática, todos perceberam que as necessidades de uma criança deficiente não são tão diferentes das demais", diz.

Mas além das resistências dos professores, o principal obstáculo na implantação do programa foi a pressão dos pais. Muitos não queriam que o filho frequentasse a mesma sala que um deficiente, com receio de diminuição na qualidade do ensino. Por outro lado, pais de deficientes tinham medo de matricular seus filhos por acharem que eles sofreriam preconceito.

Para lidar com essas questões, todo o trabalho de divulgação nas escolas e na APAE sempre teve como foco a possibilidade da convivência. Os anúncios também sempre deixavam claro que as portas da secretaria estavam abertas para tirar qualquer dúvida e ouvir as reclamações. "Ainda há alguma resistência, mas a imensa maioria dos pais aceita bem a inclusão", diz a coordenadora Ilma Mendes.

Infraestrutura
Além da preparação técnica, a Secretaria também precisou fazer investimentos na estrutura das suas unidades. As escolas sofreram algumas alterações para garantir a acessibilidade aos alunos, com construção de rampas e corrimãos. Uma parceria com o Ministério da Educação (MEC) permitiu que fossem instaladas as chamadas Salas de Recursos Multifuncionais, que dispõem de materiais pedagógicos voltados para as diferentes necessidades dos alunos com deficiência. As salas possuem equipamentos audiovisuais, mobiliários e jogos adaptados, além de outros materiais específicos.

As salas são frequentadas pelos alunos no contraturno das aulas, duas ou três vezes por semana, e não servem só como reforço escolar, mas têm um papel importante na elaboração de estratégias pedagógicas que facilitem o acesso ao currículo e a interação dos alunos com deficiência com as outras crianças do grupo.

Cada sala conta com um docente com conhecimentos em educação especial, como a professora Patrícia Santana, da Escola Municipal Vidinha Pires. Para poder atuar, ela fez cursos de capacitação presenciais e a distância, por meio de uma parceria da Secretaria de Educação com a Universidade Federal do Ceará (UFC).

Patrícia realiza atendimento individual e em grupo. De acordo com ela, as salas são determinantes para a evolução dos deficientes, mas o desenvolvimento da tolerância desde o começo do programa foi um importante aprendizado. "O respeito à diferença surgiu pela convivência entre todas as crianças, por estarem no mesmo lugar, aprendendo o mesmo conteúdo."

Acompanhamento
Atualmente a rede municipal de Montes Claros conta com 23 salas de recursos multifuncionais. Além dos professores responsáveis por elas, a Secretaria abriu concurso para a contratação de auxiliares de docência, que acompanham, de forma integral, alunos autistas, surdos e cegos, com paralisia cerebral (comprometimento severo) e esquizofrenia com nível mais elevado, entre outros casos.

Para avaliar os alunos deficientes, os professores analisam a evolução de seu comportamento e do envolvimento que eles apresentaram no decorrer do ano. Essas análises tomam forma de relatórios periódicos, que servem de base para o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), garantindo a adequação às notas e ajustamento ao processo educacional. O Plano é atualizado a cada bimestre, assim como os boletins de notas dos outros alunos, para não promover a noção de diferenciação entre os estudantes. A avaliação do estudante com deficiência, entretanto, é sempre baseada somente nos seus avanços pessoais, jamais sendo comparado com o desenvolvimento dos outros.
Além disso, cerca de 20 pessoas da equipe do Setor de Educação Inclusiva desenvolvem trabalhos por área de deficiência para auxiliar os educadores nas escolas. Elas visitam as unidades para descobrir possíveis necessidades de assistência especial ao educando e ao professor e contribuir com o desenvolvimento do ensino.

Para Vera Lúcia, diretora do Cemei Mundo da Criança, a assistência contínua da Secretaria é essencial para o bom andamento do programa. A gestora avalia que essa atenção se refletiu no comprometimento do corpo docente e, por consequência, melhorou o ensino. "As experiências com todo o projeto foram muito positivas e com o apoio é mais fácil superar os problemas que surgem."

Os cursos de capacitação oferecidos pela Secretaria acontecem anualmente e cada um aborda uma doença em particular. A finalidade é apresentar maneiras de ensinar crianças que apresentem essa deficiência. "Passamos a entender melhor as dificuldades da criança e, assim, conseguimos estabelecer uma comunicação mais fluente com ela", diz a professora Ruth Ribeiro.

Recursos
Mariléia de Souza, secretária de Educação de Montes Claros, tem orgulho do trabalho realizado na cidade, mas conta que ainda luta para manter as contas em dia. "Os investimentos feitos para a contratação de novos educadores e as reformas estruturais trouxeram um aumento considerável dos custos, que nem sempre podem ser alocados da forma como gostaríamos", explica. Para ela, falta flexibilidade nas contratações, já que os concursos nem sempre qualificam o profissional com o melhor perfil para um trabalho tão delicado. Mariléia aponta dificuldades para pagar as equipes multidisciplinares, de saúde e auxiliares necessários, pois são gastos que não estão previstos no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

Para driblar esse empecilho, Mariléia geralmente conta com a colaboração das outras Secretarias, que cedem os profissionais quando possível. "Às vezes tenho o consultório, mas não tenho o médico, porque a Secretaria de Saúde não pode ceder e não tenho como pagar. Mas os benefícios conquistados com o programa superam, de longe, os entraves", acredita.

Um dos planos da pasta é a construção de um centro de referência sobre educação inclusiva no município, que irá auxiliar não só a rede de ensino de Montes Claros, mas também os municípios vizinhos. "Vai ajudar a diminuir a demanda  de outras cidades e, mais importante, vai ser um belo passo para o fomento da educação inclusiva no país", diz a secretária.

Edição 40
Junho 2014
ASSINE SUMÁRIO EDIÇÕES FOLHEIE
publicidade
publicidade

publicidade

publicidade

Editora Segmento - Nossas Revistas

Copyright © 2012 - Editora Segmento - Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
Política de Privacidade